Onde estavam todas as glórias de suas viagens? Onde estava os filósofos que conhecera e as filosofias que carregavam? Onde estava seu coração? Pior! Onde estavam os dons que moravam no coração junto com as pessoas de quem gostava e o amor próprio?
Furioso tentara várias vezes quebrar o espelho, mas em um piscar de olhos o espelho reaparecia em sua frente, intacto e sombrio reflectindo uma imagem sarcástica que nem mesmo nos seus momentos de falsa soberba julgava esboçar...
Em uma noite lembrou do seu planeta e das pessoas que lá habitavam. Simples e diretos. Era certo que raras as vezes alguma moda ou novidade quebrava aquele jejum estático que lá permanecia. Será que lá eu era feliz? - Pensou o denegrido astronauta - Não tinha motivos para ficar triste naquelaépoca. Mas felicidade era a ausência de tristeza? O que o diferenciava dos seus conterrâneos era ter uma alma grande suficiente para colocar estes dois sentimentos lado a lado e crescer em meio a estes conflitos. Tanto que não coube mais no seu planeta e teve que buscar novos espaços...
... sim! O Astronauta esta meditando novamente e isto acendeu uma pequena luz no seu interior. Luz suficiente para ver que tudo que havia perdido ainda estava dentro dele só que empoeirado e desarrumado. O seu problema na verdade era ter se acomodado e esquecido da bagagem que já tinha. Em um velho canto de sua mente estava a boa e velha merendeira do Rambo com tudo que precisava para descobrir novos mundos novas pessoas e novos mundos dentro destas mesmas pessoas. Ele era um astronauta, um viajante... e de nada adiantaria estes nomes com ele parado em frente aquele espelho ruminando feridas que a tempo já eram para estar fechadas.
A tristeza não tinha que sumir, mas tinha que dar espaço para a felicidade poder crescer, talvez crescer a ponto de sufocar as dores e elas não incomodarem tanto como fazia até aquele momento...
... em meio a meditação o filosofo Hindu abre os olhos e se depara com a imagem outrora sarcástica chorando. Um choro discreto mas com os olhos úmidoso suficiente para refletirem a própria imagem real do astronauta. Agora sim Venceslau conseguia se ver novamente.
- Não quero mais lutar com você, não preciso. Só consigo te vencer com a coisa que eu melhor sei fazer... viajar. O que faltava era viajar dentro de você, minha imagem. E foi o que acabei de fazer. O seu papel termina aqui. O que resta agora é dizer adeus...
Assim o astronauta deu as costas ao espelho e começou a andar para bem longe dali... assim como sua imagem dentro do espelho também fazia. O espelho ia ficando cada vez menor e na mente do astronauta ressoava uma antiga música* que aprendeu em suas viagens:
"Uma alma de coragem e suas garras falam de desejos e sonhos
Suas lágrimas me respondem em silêncio sobre o vazio e o medo
Deixe-a andar e buscar o que é seu
Não tenha medo e não olhe pra trás
Eu sei que às vezes...
Nos dá vontade de chorar, talvez tenha motivo
Deixei a porta aberta, talvez venha me buscar
E na janela já vejo outro dia
Veja o avesso dos sentidos e da imagem que eu refleti agora mesmo
Não pense em desistir, vista-se de razão
Coloque o outro pé ali e suba este monte
Eu sei que às vezes...
Nos dá vontade de chorar, talvez tenha motivo
Deixei a porta aberta, talvez venha me buscar
E na janela já vejo outro dia
Se o peso da angustia tocar os seus olhos não assuste e lave o rosto
Deixe-a andar e buscar o que é seu
Não tenha medo e não olhe pra trás
Eu sei que às vezes...
Eu tenho o vento que sopra o meu cabelo
Eu sei que as árvores no outono não morreram
Eu sei que corre sangue quente em todos os seus passos
Eu sei que às vezes..."
Ao longe o Astronauta escuta um grito:
- Te vejo novamente?
- Por enquanto não - respondia Venceslau ao reflexo...
Nota do autor: A letra da música (Talvez tenha motivo) é autoria do meu amigo Rodolfo que também enfrentou o espelho. Com todos direitos reservados.
