sábado, 20 de junho de 2009

O fim do espelho...

Um ano se passou contemplando o espelho. Aquela imagem distorcida nada lembrava do quão intrépido era o astronauta. Olheiras substituíam o significado de olhos profundos e nem lembrava como era seus dentes pois tinha esquecido de como era sorrir. Três foram as vezes que conseguira enfrentar o espelho, mas sua imagem era esperta e três vezes foi derrotado. As pílulas não faziam o efeito que o mestre tinha dito, cada golpe desferido contra a imagem era um golpe desferido em si mesmo. Enquanto o astronauta tentava convencer o espelho a desistir, sua imagem apunhalava o próprio peito sem nada lhe acontecer, ao contrário de Venceslau que caía de dores no chão e vomitava todas as suas agonias.
Onde estavam todas as glórias de suas viagens? Onde estava os filósofos que conhecera e as filosofias que carregavam? Onde estava seu coração? Pior! Onde estavam os dons que moravam no coração junto com as pessoas de quem gostava e o amor próprio?
Furioso tentara várias vezes quebrar o espelho, mas em um piscar de olhos o espelho reaparecia em sua frente, intacto e sombrio reflectindo uma imagem sarcástica que nem mesmo nos seus momentos de falsa soberba julgava esboçar...
Em uma noite lembrou do seu planeta e das pessoas que lá habitavam. Simples e diretos. Era certo que raras as vezes alguma moda ou novidade quebrava aquele jejum estático que lá permanecia. Será que lá eu era feliz? - Pensou o denegrido astronauta - Não tinha motivos para ficar triste naquelaépoca. Mas felicidade era a ausência de tristeza? O que o diferenciava dos seus conterrâneos era ter uma alma grande suficiente para colocar estes dois sentimentos lado a lado e crescer em meio a estes conflitos. Tanto que não coube mais no seu planeta e teve que buscar novos espaços...
... sim! O Astronauta esta meditando novamente e isto acendeu uma pequena luz no seu interior. Luz suficiente para ver que tudo que havia perdido ainda estava dentro dele só que empoeirado e desarrumado. O seu problema na verdade era ter se acomodado e esquecido da bagagem que já tinha. Em um velho canto de sua mente estava a boa e velha merendeira do Rambo com tudo que precisava para descobrir novos mundos novas pessoas e novos mundos dentro destas mesmas pessoas. Ele era um astronauta, um viajante... e de nada adiantaria estes nomes com ele parado em frente aquele espelho ruminando feridas que a tempo já eram para estar fechadas.
A tristeza não tinha que sumir, mas tinha que dar espaço para a felicidade poder crescer, talvez crescer a ponto de sufocar as dores e elas não incomodarem tanto como fazia até aquele momento...
... em meio a meditação o filosofo Hindu abre os olhos e se depara com a imagem outrora sarcástica chorando. Um choro discreto mas com os olhos úmidoso suficiente para refletirem a própria imagem real do astronauta. Agora sim Venceslau conseguia se ver novamente.
- Não quero mais lutar com você, não preciso. Só consigo te vencer com a coisa que eu melhor sei fazer... viajar. O que faltava era viajar dentro de você, minha imagem. E foi o que acabei de fazer. O seu papel termina aqui. O que resta agora é dizer adeus...
Assim o astronauta deu as costas ao espelho e começou a andar para bem longe dali... assim como sua imagem dentro do espelho também fazia. O espelho ia ficando cada vez menor e na mente do astronauta ressoava uma antiga música* que aprendeu em suas viagens:

"Uma alma de coragem e suas garras falam de desejos e sonhos

Suas lágrimas me respondem em silêncio sobre o vazio e o medo

Deixe-a andar e buscar o que é seu

Não tenha medo e não olhe pra trás

Eu sei que às vezes...

Nos dá vontade de chorar, talvez tenha motivo

Deixei a porta aberta, talvez venha me buscar

E na janela já vejo outro dia

Veja o avesso dos sentidos e da imagem que eu refleti agora mesmo

Não pense em desistir, vista-se de razão

Coloque o outro pé ali e suba este monte

Eu sei que às vezes...

Nos dá vontade de chorar, talvez tenha motivo

Deixei a porta aberta, talvez venha me buscar

E na janela já vejo outro dia

Se o peso da angustia tocar os seus olhos não assuste e lave o rosto

Deixe-a andar e buscar o que é seu

Não tenha medo e não olhe pra trás

Eu sei que às vezes...

Eu tenho o vento que sopra o meu cabelo

Eu sei que as árvores no outono não morreram

Eu sei que corre sangue quente em todos os seus passos

Eu sei que às vezes..."




Ao longe o Astronauta escuta um grito:

- Te vejo novamente?

- Por enquanto não - respondia Venceslau ao reflexo...






Nota do autor: A letra da música (Talvez tenha motivo) é autoria do meu amigo Rodolfo que também enfrentou o espelho. Com todos direitos reservados.