quarta-feira, 16 de julho de 2008

E agora?

Nossa! Desde seu coma o anestesiado astronauta nunca tinha dormido tanto. Mal chegara aquela máquina voadora no solo e ele estendeu sua rede portátil e resolveu dormir. Em seu planeta é costume as pessoas dormirem após assimilarem mais ou menos uns 15 kiloepifanias. Na verdade ele tinha assimilado muito mais do que isso e ficou viciado. Após alguns giros incalculáveis do seu contador de tempo sentia falta da frequencia de algo entre a repetição e a inovação.
Além disto não estava preparado para descobrir que a Terra são vários mundos dentro de um só.
Esperava apenas sonhar, mas algo estava o incomodando. Sentia-se vazio. Com seus conhecimentos básicos de Vidamecina diagnosticou que estava sofrendo uma doença bastante comum para as pessoas de outro mundo: Solidão cega (vulgo frio na barriga ruim). Sabia-se que no Brasil tinha maneiras de se curar rapidamente deste mal. Mas neste local em que havia pousado havia também uma outra doença tão ruim quanto a dele. Alguns a chamavam de mudancite. Assim como na Europa, a moda do medo tomou conta de todos que ali habitavam. Um dos principais sintomas desta doença era a amnésia seguida de um pseudoegoísmo, que inibia as pessoas de unirem para resolver mais rápido seus problemas.
Assim, ainda sentindo seus males, o astronauta chorou. Sua doença, em conjunto com a outra, cada vez mais o deixava de cor cinza (típico de E.Ts tristes). Sua cegueira o levava a perguntar qual era o valor de crescer cada vez mais? Aprender algo a mais vale a pena? Ou é melhor esquecer que tamanho é documento sim? Não o tamanho de um elefante ou formiga, mas o tamanho da luz que emana dentro daquela bombinha que se chama coração. Houve um tempo que a luz era tanta que até a sombra fugia com vergonha.
Sua cegueira, além de tudo, escondeu o que era uma das coisas mais importantes para ele: amor sobre as coisas. No cérebro de um astronauta, o amor é um todo, mas em cada um dos seus mil átrios e ventrículos existia algum tipo de manifestação diferente. Amar as coisas era dificil para muitos mas ele fazia isto como se fosse lamber a tampa de um frasco de chocolate.
Com algumas poucas válvulas entupidas seu sangue mal corria pelo coração e o cérebro brincava com dificuldade de lembrar as coisas. Lembrava, do mestre, do amigo bêbado, das pessoas de que tanto gostava do seu planeta, do disloptizador, da cigana... onde ela andaria agora?
Nada mais fazia sentido então ele resolveu brincar de não existir. Ficou ali parado deixando aquele frio ruim na barriga ficar pulando de um lado para o outro.
Quando já estava quase convencido de que não existia mesmo uma voz ecoa do céu dizendo: Você vai ter que vomitar este frio... seu idiota!
Mais que assustado o astronauta observa um tapete persa falsificado voando sobre sua cabeça e nele seu mestre lixando a unha do dedão do pé:
"- Pensei que dava para deixar você se virar sozinho mas você ficou burro demais, bebeu de menos e comeu falsas esperanças demais! Você sabia que falsas esperanças tem um colesterol tão alto que faz o coração quase parar de bater? Vou fazer o seguinte, vou te dar este espelho e esta caixa. Enquanto você não conseguir tirar sua imagem de dentro do espelho e bater nela você não pode abrir a caixa.
- Mas como eu me tiro deste espelho? - perguntou o insaturado e gorduroso astronauta - e prá quê esta caixa?
- Mas você tá cego mesmo heim? Para você tirar sua imagem do espelho, você tem que fazer ela ter inveja de você a ponto de querer roubar seu lugar. Quando ela sair você espanca ela com uma bexiga de mortadela e mostra quem manda. Depois disto você abre a caixa e toma por dia um comprimido de esperança (verdadeira, light e turbinada com sonhos) pela manhã. E se nada disto der certo, o que eu duvido, você pega o espelho e começa tudo de novo, pois enquanto você e sua imagem não se entenderem você vai continuar cego e não vai conseguir ver o resto das coisas que queria ver nesta suas férias."
Assim como da primeira vez o mestre sumiu, mas agora voando em um tapete que fedia a diesel queimado...
Quanto ao espelho era difícil ver o que tinha lá dentro, se era o astronauta ou apenas o que ele imaginava ser...

terça-feira, 15 de abril de 2008

O papel escreve o astronauta...

O avião mal tinha levantado vôo e o astronauta já "viajava viajando" pois assim tinha duas viagens pelo preço de uma mesmo que as cias. aéreas, semelhante a máfia dos Plutônianos, insistissem em roubar todos seus papéis coloridos de valor.
Para sua viagem extra só lhe foi necessário um papel de menos valor que os coloridos e uma caneta escrevedora:


"(...) Qual a diferença entre andar pelo chão de morros
e brincar com as aranhas no teto?
O que é ter uma casa e não um lar?
Será meu coração trovejando
ou mero desafino?(...)"

Mas para variar sempre vem uma aeromoça com um sanduíche para atrapalhar...

segunda-feira, 17 de março de 2008

Tic... Tac...

Passado os dias , a Europa parecia pequena para o coração do astronauta... conheceu a Grécia e seus deuses que mudaram para Roma, conheceu Roma e descobriu que lá era a casa de um Deus que tinha conseguido mandar os mesmos deuses gregos embora para os livros. Foi também para Veneza rever a tão lembrada cigana e comprovar que os corações de nômades são caóticos, livres, loucos e apaixonados pelas estradas da vida.
Por fim chegou em Londres... casa do tempo, onde existe um relógio que observa a todos com seu hipnótico tic, tac, tic, tac... tic... tac...
Quase em um transe, nosso "nonsenssizado"astronauta, vê o mundo girar firme e correto, fazendo as pessoas envelhecerem e morrerem... Em seu próprio mundo ás vezes se fazia uma espécie de Curdanand (votação aqui na Terra). Nesta época era escolhido se o planeta Coiotus ficava parado ou não. Seu mundo ficava parado durante seis meses, assim como o tempo e depois disto as lembranças que se tinham eram guardadas em uma caixinha azul para serem apreciadas sempre que se estivesse mal o suficiente para se esquecer do quanto um momento passado pode ter sido bom. Um dia antes do tempo congelar, as pessoas pensavam qual era a melhor situação, sensação e estimulo para ser saboreado durante os meses. O interessante era que a maioria das pessoas escolhiam situações amororosas para passar este tempo.
Foi dito a muito tempo por um profeta com dois corações que: "o amor não é eterno por si só. Sua duração depende da perseverança e capacidade de enfrentar os obstáculos que aparecem no momento em que duas pessoas decidem ficar juntas acima de suas diferenças".
"Qual o direito teria deste sentimento ser eterno, se seus outros irmãos como a alegria, a tristeza e principalmente a dor passam? Se a dor também fosse eterna o que seria de nós sem a esperança de que tudo um dia virasse apenas uma cicatriz?".
"O mais próximo da eternidade que um amor pode chegar é proporcional a lembrança dos momentos em que este sentimento se fez valer a pena. E apenas os que lutaram com toda sua força podem sentir isso, pois tem em sua mente que nada duradouro vem de graça"...
Depois deste dia foi assombroso como milhares de pessoas, com medo da descoberta do amor perecível, passaram a aumentar a duração de determinados momentos de afeição.
Talvez não tenha sido bem isso que o poeta quisesse dizer... a vó do astronauta, que nem profeta era, já dizia: "roupa colorida exposta demais ao sol desbota"...